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Crush de Esquerda

Updated: Oct 10, 2025

Sempre fui meio metida a besta né? Quando eu acho alguém interessante, dependendo das circunstâncias, eu tenho tendências a achar que essa pessoa me acha interessante também. Isso é difícil de admitir e ainda mais difícil de escrever. Sério, eu estou ciente. É vaidade inflada, sem noção e desilusão total! Mas, como diria Clarice Lispector, se eu sou assim, o jeito é ser não é mesmo? É que na minha cabeça, se eu estou vendo a pessoa, e a pessoa está me vendo, e tem evidências de que a gente se olhou, e se falou, rolou uma troca de interesse – que na maioria das vezes não vai levar a lugar nenhum, disso eu sei. Mas o interesse existe. E o que existe, persiste (nem sempre).

 

Em Bologna não foi diferente. Cheguei chegando porque tinha conseguido trabalho de editora chefe do jornal da universidade em 2019. Ganhava 400 dólares por semestre, mas me achava a própria Miranda Presley. Estava completamente desiludida, coitada. Com esse ego todo inflado, quando o menino mais bonito do mestrado puxou conversa comigo na aula de francês, senti que tinha clima para eu ficar com o popular do pedaço sim. Ele chegou dizendo que já tinha ido ao Brasil, e que amava muito o Brasil e que a gente tinha que ser amigo e ir para o Brasil juntos. Falei, com certeza, esse tá na minha. Com sorrisinho no canto e a sobrancelha arqueada, fiquei esperando acontecer.

 

E foi acontecendo. Toda festa que tinha na piazza da cidade, a gente conversava, se conhecia.  Trocávamos ideias sobre o curso, a vida, o carnaval... Minhas esperanças e expectativas aumentavam com cada gole de aperol spritz que eu dava, que hoje atribuo fortemente como a causa principal da minha gastrite dos 30. Até que um dia, antes de começar nossa aula de francês, no qual tivemos que ser separados pela professora que nos acusou de atrapalhar o ensino dos outros alunos por excesso de fofoca (quem nunca?), ele chegou para mim e falou que ia dar uma festa na casa dele, e que era muito importante que eu comparecesse. 

 

Ao som de “hoje” da Ludimila no meu percurso da universidade para casa, voltei saltitando e serelepe, com um sorrisão e um bom humor raro de se ver nos becos da cidade italiana, ainda mais em dia de chuva. Mandei uma mensagem nada sutil para os meus amigos para perguntar se eles tinham sido chamados para uma festa. Eles disseram que sim. Perguntei quem chamou eles, e eles me falaram que era um outro morador da casa, confirmando a minha suspeita que meu convite tinha sido especial sim. Respirei aliviada.

 

No dia da festa, tinha que marcar presença. Fiz hidratação no cabelo, passei lápis e rímel no olho e caprichei no iluminador. Passei batom matte para não borrar, taquei 5 borrifadas do meu perfume que tem um péssimo fixador e lá fui eu, ao som de Ivete Sangalo no fone de ouvido para me dar sorte.

 

Depois de subir três lances de escada, um típico charme italiano, e esperar um pouquinho para recuperar o fôlego, um típico charme de Julinha, toquei a campainha. Abriram a porta e a casa estava abarrotada de gente. Pensei, ta bem, não é uma festa íntima como eu achava que era. Mas adaptamos. Segui para dentro para localizar meus amigos e pegar uma bebida, torcendo para que ele aparecesse entre os 20 passos do meu percurso. Achei uns amigos e fiquei conversando com um copo de vinho na mão. Nada dele.

 

Até que uns 30 minutos depois, começa a descer um monte de gente de uma escada em formato de caracol, dentro da casa. Da cozinha, fiquei acompanhando as cabecinhas descerem devagar, uma por uma, até que, finalmente, aparece a cabecinha dele. Lindo. Passei a mão no cabelo para colocar ele por detrás da orelha, e juntei os lábios para fixar o batom vermelho.

 

Quando ele me viu, abriu um sorrisão e foi andando na minha direção. Meu coração começou a se manifestar, mandando mensagens para o meu cérebro neurótico de que ele reinava – ganhando da razão.  O boy chegou até mim, me abraçou, e disse que estava feliz que estava lá. Dei um sorrisinho e fiquei vermelha. “Vem, que vou te mostrar a minha casa,” ele disse estendendo a mão. Respirei fundo, fechei o olho, agarrei a mão dele e fui com toda certeza e confiança que cabia em mim.

 

Ele me mostrou a sala e a cozinha, que eu já estava mais do que familiarizada, me levou até a varanda e paramos na sala de jantar. Aí ele falou, agora deixa eu te mostrar meu quarto. Olhou para cima, apontou com o queixo para o teto fazendo um vai e vem com a cabeça para dizer que era depois da escada. Balancei a cabeça que sim. Subimos a escada em caracol, devagarinho. Quando chegamos ele falou que ia fechar a porta para não contaminar fumaça no resto da casa. Abriu a janela, me deu um cigarro e pegou outro para ele. Sentei perto da janela rezando para não me engasgar na fumaça igual eu tinha feito todas as outras vezes que eu tinha tragado um. Enquanto ele pegava um isqueiro, já imaginei todos os cenários dos nossos próximos dates. Eu ia ter que inventar uma desculpa e falar que estava tentando parar de fumar, não tinha como eu sustentar esse hábito. Mas dessa primeira vez, ia deixar passar. Importante a gente não se precipitar.

 

E lá veio ele, com o isqueiro na mão, o cigarro balançando bambo entre os lábios e uns fios de cabelo preto atravessando, perfeitamente, o caminho do couro cabeludo, passando pela testa, e acabando na orelha. Sentou na minha frente, pertinho, joelho com joelho. Fez uma cumbuquinha com a mão para proteger o fogo do vento e acendeu nosso cigarro. Primeiro o dele, e depois o meu. Fiquei em silêncio olhando para ele e esperando o cigarro queimar sozinho, para eu ter que dar o mínimo número de tragadas possíveis. E ele, olhando pela janela. Silêncio não é de todo ruim, tenha paciência Julia, eu pensava. Depois de um tempinho, ele virou o rosto para mim. Me olhando intensamente, disse que precisava me contar um segredo. Eu, toda encolhidinha, cheguei para frente para escutar enquanto ele procurava minha orelha com a mão, em formato de cumbuquinha igual quando ele foi acender o cigarro.

 

E então, ele chegou mais perto. E mais perto.

 

“O que eu preciso te dizer é: eu amo o presidente Lula. E acho uma tremenda de uma injustiça ele estar na cadeia”.

 

A cada palavra que ele falava, eu relaxava os músculos. A minha boca foi se alongando, no que começou com um sorriso charmoso, e acabou em risadas de contorcer a barriga. Fui chegando para trás, rindo, olhei para ele e disse:

 

“Calma, é isso que você queria me falar?” perguntei, sentindo o meu clima de romance desaparecer a cada inspiração.

 

Ele, que também estava rindo, deu uma tragada no cigarro, olhando para janela e retirando os joelhos que estavam se apoiando no meu para o lado da varanda . Sexy, sempre sexy.

 

“É sim,” confirmou. “Tenho uma admiração tremenda por Lula e queria saber o que você acha dele. Ele é um grande líder político,”

 

Mordi os lábios para dentro, fechei o olho para aceitar melhor a derrota. Olhei para o cigarro se queimando entre meus dedos sem jeito e falei: “Você tem toda razão, Lula arrasa demais,”.

 

Pouco tempo depois, ou simultaneamente, entrou um monte de gente no quarto acendendo a luz e o chamando para ver alguma coisa no celular de alguém. Ele deu sua última tragada, apagou o cigarro, me olhou com um sorriso no canto da boca, deu uns tapinhas na minha perna apontou para amiga com o celular. Fiz que sim com a cabeça, claro, e abri um sorriso.

 

Quando ele virou as costas, apaguei o cigarro no cinzeiro, esfreguei as mãos abertas na perna, respirei fundo para expelir minhas expectativas e o gosto amargo do Marlboro, levantei e fui atrás da minha amiga no andar de baixo.

 

Depois dessa noite continuamos fofocando no francês, conversando sobre tudo e todos. Acabamos perdemos contato porque cada um foi para um canto do mundo. Mas sigo acompanho ele com orgulho nas redes, vendo ele hora nas praias europeias ou fazendo ativismo político.

 

Aceitei esse golpe com classe e convicção. Afinal não é o primeiro, e provavelmente nem o último homem que vou perder para Lula. Já dizia Macron, não é mesmo? Seguimos sem medo de ser feliz.

 
 
 

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